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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A transposição da 4ª para a 5ª série – ritual de passagem da sociedade moderna




Ana Sueli Ribeiro Vandresen





Muito se tem falado sobre a importância da universalização da educação. Entretanto, sabe-se que não basta promover o acesso de todos à educação. É preciso que se dê condições para aqueles que nela se inseriram, permaneçam usufruindo de seus ensinamentos.
A transposição da quarta para a quinta série se constitui num estrangulamento dessa permanência, apresentando-se como momento onde novos elementos complexificam as práticas vivenciadas por alunos e professores. Esta passagem foi identificada, por um grupo de professores integrantes do Programa de Desenvolvimento Educacional - PDE, da Secretaria de Educação do Paraná - SEED, como um dos fatores da evasão e reprovação na quinta série.
Esse grupo, constituído de doze professores titulados, integram via PDE, no Núcleo da Área Metropolitana Norte, o projeto SUPERAÇÃO, da SEED, visando diminuir os índices de evasão e repetência das escolas. Isto posto, neste trabalho busca-se refletir sobre esse momento da vida do estudante, embasado em autores como Bossa (2000), Eizirik (2001), Focault (2003) e Neves & Almeida (1998), para se propor um olhar diferenciado para esses alunos.
A transposição da quarta para a quinta série é apresentada, por diversos autores, como um período de transformações e desafios para o aluno.
Entre elas, ocorre a mudança de ambiente, pois o sistema adotado para o ensino fundamental, onde suas série iniciais (1ª a 5ª) são de competência do Município, enquanto as finais (6ª. a 9ª) competem ao Estado, predispõe a essa ruptura física. Porém, não ocorre apenas uma mudança física-espacial. Segundo Bossa (2000) a entrada para a quinta série, representa o desejo de crescer, a conquista de nova identidade e promessa social, como também, promove a dor que esse crescimento traz ao aluno. O novo espaço ao qual a criança necessita se adaptar é um ambiente onde uma profusão de emoções, movimentos, sons se misturam, constituindo uma vida escolar diferente da anterior.
Ouvindo os envolvidos e observando os “lugares de encadeamento do que se diz e do que se faz, das regras que se impõem e das razões que se dão” presentes nessa passagem, segundo Foucaut, pode-se identificar o surgimento de práticas diferentes na vivência dos alunos (2003).
Segundo Eizirik (2001), a escola é um espaço de trocas afetivas e intelectuais, de socialização, desenvolvimento de potencialidades e aprendizagem de regras culturais.
Desta forma, nesta passagem manifestam-se práticas promotoras do desenvolvimento de aspectos pessoais até então desconhecidos. Além disso, ocorre a necessidade de rearranjar os componente antigos, agora associados a elementos novos na constituição de um novo contexto escolar, um novo período, “um momento de dificuldades, não alegrias, e fragilidade no desempenho escolar” (Rangel, 2001).
Isto faz necessária a percepção dos elementos aí articulados, para se propor novas atitudes de professores e direção escolar, pautadas em um novo olhar que considera a sensação descrita por alunos, professores e pais de que algo diferente acontecerá a partir da quinta série. Leonço (1997) afirma que a vida dos adolescentes na quinta série é uma gangorra oscilante, ocasionada pelas mudanças de atitudes; as alterações de humor e a convivência com diferentes professores possibilitam ao aluno a construção de novas formas de ser relacionar com o conhecimento, sendo responsável por sua ação.
Desse movimento emerge “um sujeito que, pelo menos afetivamente, já começa a demonstrar ‘reformulações’ diante do seu grupo familiar e escolar” (p.294). A passagem da quarta para a quinta série é apresentada pela literatura como um momento de transições e adaptações difíceis para o aluno Essa passagem, fruto da sociedade moderna, assemelha-se ao ritos de passagem indígenas, ou seja às cerimônias que marcam a passagem de um indivíduo de uma fase do ciclo para outra. Como esses rituais, esta transposição pressupõe a aplicação de maus tratos, traduzida pela impaciência de muitos professores com seus alunos, de dor e, naturalmente, temor e ansiedade aos envolvidos.
Assim sendo, necessita ser refletida pelos educadores para não ser vista como uma hostilidade latente entre dois grupos distintos: o que pratica e o que sofre os maus tratos, cujos membros, por sua vez, iniciam-se no caminho que os incorporará à categoria do primeiro, ou seja, as crianças iniciam-se no mundo dos adultos.

5ª série sem atropelos: Como amenizar o impacto da passagem da 4ª para a 5ª série



Os estudantes ficam perdidos quando passam para a segunda metade do Ensino Fundamental. O número de professores aumenta, a organização de horários muda, cresce o volume de conteúdos. Tudo isso no início da adolescência, quando os alunos já estão naturalmente confusos. "Nessa idade, os jovens ainda não sabem estudar e organizar o tempo e não aprenderam a respeitar prazos rígidos", explica Clice Haddad, orientadora educacional da Escola da Vila, em São Paulo.
Criar uma rotina de estudo é uma das primeiras noções que o adolescente deve adquirir para se sair melhor nesse momento. "Mostre ao estudante que, ao chegar em casa, ele precisa abrir o caderno, lembrar como foi a aula, ler as anotações, pensar no que pode ser explorado mais profundamente e escrever as dúvidas que serão tiradas no dia seguinte", diz Clice.
Outra dica prática é o uso de agenda — uma parte do caderno dividida em dias e meses faz o mesmo efeito. "Ensine os alunos a ordenar as tarefas na semana. Se for a leitura de um livro, por exemplo, mostre quantas páginas a publicação tem, quantas horas serão necessárias para completar o volume e sugira a eles dividir esse tempo pelo período livre que têm diariamente", explica Clice.
Ao adotar algumas medidas de caráter geral, a equipe escolar também ajuda as turmas de 5ª série. Você e os demais docentes podem fechar acordos para unificar as regras de convivência. "Uma idéia é eleger um professor como coordenador de classe, que representará o corpo docente e terá um contato mais íntimo com cada sala", sugere Isabel Galvão, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).
Já o professor Carlos Jamil Cury, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), lembra que em algumas escolas educadores acompanham os alunos por todo o Ensino Fundamental. "Se o professor de 1ª a 4ª série for licenciado em alguma disciplina, ele poderá atuar de 5ª a 8ª, servindo como uma referência permanente para os jovens."

Como ajudar o estudante
Programe a aula de forma que os minutos finais fiquem reservados para tirar dúvidas, guardar o material e anotar a lição de casa. Essa é uma estratégia para que a turma se acostume com as várias disciplinas.
Dê mais de um dia para a tarefa de casa e sempre tome cuidado para não sobrecarregar os jovens.
Produza calendários de provas com antecedência para evitar a coincidência de datas entre diferentes disciplinas e para ajudar a classe a programar os estudos.
Não considere as provocações dos adolescentes como ofensa. Nessa fase, eles estão começando a contestar os adultos. Aproveite a oportunidade para discutir as relações sociais e o senso de respeito às idéias do outro.

http://revistaescola.abril.com.br/edicoes/0169/aberto/mt_145026.shtml



5ª SÉRIE – UMA QUESTÃO ESCOLAR: O DRAMA DA TRANSIÇÃO


Elza de Souza Tomita
Maria da Gloria dos Santos





De acordo com a teoria freudiana, o individuo, por volta dos 11 anos, encontra-se saindo do período de latência e iniciando o desabrochar da sexualidade própria dessa fase:
O período de latência: na teoria freudiana, o período que vai do fim da fase edipiana em torno de 6 anos até o início da puberdade e o começo da sexualidade genital. Freud considertou este como um período relativamente calmo do desenvolvimento infantil. (Stratton e Hayes, 1993, p.174)
Um dado marcante neste momento de vida do jovem é que passa a ter uma vida escolar mais complexa, com muitas matérias de estudo, professores de ambos os sexos e múltiplos contatos com meninos e meninas. Ele esta numa boa fase de desenvolvimento cognitivo, de linguagem e social e se interessando muito pelo mundo dos adultos.
Essa descentralização que acontece na pré-adolescência tem a função de liberar o pensamento infantil do concreto e imediato e direcioná-lo para o abstrato e o futuro, ou seja, transformando o pensamento em instrumento cientifico.
Enfim, o jovem quintanista é um ser em transformações, suas referencias necessitam de novas estruturações. Ele perdeu a referencia familiar e encontra-se mais voltado para os aspectos sociais e dos grupos de amigos.
Neste momento, percebemos que se estabelece um impasse. O adolescente perde nas referencia infantis, esta desestruturando e necessita que a escola supra esta lacuna. Mas, como ser referência para o aluno quando a própria escola encontra-se perdida quanto a seu papel e sua função?
O tempo de meninice, tempo de descobertas e de prazer no aprender, e apreender a si e ao mundo, como o equilíbrio – andar de bicicleta, ou a dor de cair e a alegria de se levantar. Nesta fase, mesmo a escola pode ser mais uma experiência de ampliação de horizontes, aprender a ler e a escrever, a se relacionar com um mundo mais amplo e conhecer novas pessoas.
O relacionamento dos pequenos sob a supervisão de um adulto, geralmente uma professora, vai acontecendo de modo mais suave, devido em parte à fragilidade dos pequenos que torna a mestra mais “maternal”, mais acolhedora. Até a 4a série a criança, de certo modo, está mais protegida, por uma estrutura que corresponde mais ás suas vivências de até então.
Neste momento, o jovem – não mais é visto como criança – perde, principalmente na questão do apego ao professor. Os vínculos, que se estabeleciam a cada ano, às vezes mais de amor em outras mais de ódio, ligavam-nos necessariamente à figura de um mestre. Agora são vários, um para cada matéria, sem contar as freqüentes trocas no decorrer do ano letivo. Qual a mensagem que está sendo passada a esse aprendiz?
Que deste momento em diante ele se tornou parte em uma grande engrenagem, que vai além de sua capacidade de compreensão. E, que os laços afetivos devem ser deixados em segundo plano, pois, o que contará a partir de então será o desempenho intelectual.
Estabelece-se um corte entre o eu pensante e o eu que sente. Padrão na sociedade, que prega que não se deve levar problema de casa para o trabalho ou escola e vice-versa, como se as pessoas fossem compartimentadas e pudessem se dividir se cindir em dois ou mais. Essa ruptura é entendida pela teoria do apego como algo nocivo à estrutura da pessoa, visto que o apego pressupõe: uma propensão do ser humano para formar fortes vínculos afetivos com outros seres humanos; as várias formas de perturbação emocional que ocorrem quando esses vínculos são ameaçados ou rompidos; a construção ao longo da infância de modelos mentais de si próprio, do outro e da possibilidade de relacionamento interpessoal; e, maneira como esses modelos se tornam componentes centrais da personalidade, regulando a percepção, o sentimento e o comportamento do ser humano.(Castilho, 1994. p. 44).
Comportamento este, em estreita ligação com regras da escola que visam o controle do corpo – não sair da sala de aula para ir ao banheiro ou tomar água fora dos horários determinados, apenas em algumas aulas. Não se leva em conta a situação desconfortável de calor ou alguma necessidade do aluno, ele tem de aprender a se controlar. Tudo, enfim, girando em torno do controle, o professor controla o aluno, a escola controla o professor e esta é controlada por outras instâncias do poder público e é assim desde sempre.
Assim, resta ao aluno ignorar as emoções, controlar o corpo e se dedicar com afinco à esfera mental e assimilar conteúdos neutros, científicos e que por isso mesmo são destituídos de significado para ele. Qual a saída? Atribuir valor/nota, investir o professor de autoridade/ domínio de sala, ter à mão um sistema de punições que vai da suspensão à reprovação, “prender” o aluno pelo medo e não pelo afeto?
Apesar de todo conhecimento que se tem sobre aprendizagem, desenvolvimento, motivação, de tudo que já se estudou sobre o afeto e a afetividade, a escola segue com um modelo que mais lembra o período medieval, com noções dogmáticas subjacentes a um discurso de modernidade, que tem em suas entranhas um modelo de educação ainda rígido e cerceador.
Poderíamos neste ponto propor: faça-se assim... A escola poderia destinar um professor responsável por cada turma de 5º série. Este trabalharia um número maior de disciplinas ficando com menos turmas, tendo, assim, mais tempo e disponibilidade para acompanhar com proximidade aqueles alunos sob sua responsabilidade. Esse professor manteria um vínculo mais forte com os alunos, facilitando o entrosamento com os demais professores, ou seja, far-se-ia uma passagem mais suave e menos frustrante no mundo dos adultos. Um vínculo de apego seguro poderia sanar grande parte dos problemas de comportamento em sala de aula desses adolescentes.
Talvez essa pudesse ser uma solução, mas não queremos dar que seria mais uma em meio a tantas. Não pretendemos apresentar uma solução, apenas nos colocar no nosso papel de educadores que refletem sobre a educação e nessas reflexões alguns caminhos podem se delinear.
Pois... quando olho para alguém não posso olhá-lo como se fosse plano, tenho de vê-lo com toda a complexidade. E quando me junto a outros para discutir, procuro saber se eles têm a mesma mirada que eu. E assim se organizam as escola”. (Castilho, 1994. p.15)
Assim, entendemos que organização por parte das escolas e o sentimento e a emoção de todos os envolvidos na transição da 4ª para a 5ª série, numa atitude de contínua observação e reflexão, pode minimizar as dificuldades dessa fase. Não fazer do ensinar um ato mecânico, mas um processo de reflexão constante.